Professora do Centro de Educação celebra protagonismo negro em “Camélia”, livro semifinalista do Prêmio Loba
Obra infantil destaca o empoderamento e a ancestralidade através da história de uma menina negra que redescobre o significado de seu nome.

Profa. Andréa Giordanna com seu livro Camélia
Foto: Lucas Paza Botelho / ASCOM – Centro de Educação
“Camélia não gostava do próprio nome. Achava velho, coisa de museu. Queria se chamar Frida, Dandara ou Carolina.” Assim começa o livro Camélia, da professora Andréa Giordanna Araujo da Silva, uma narrativa poética e potente sobre a redescoberta de si, sobre o poder da ancestralidade e sobre o florescer da identidade negra desde a infância.
Mulher negra, filha de Valdenice, nordestina, professora, historiadora, pedagoga, mestre e doutora em Educação, Andréa Giordanna Araujo da Silva é uma das vozes mais expressivas da literatura infantil contemporânea do Nordeste. Docente do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Giordanna alia sua trajetória acadêmica e pessoal à escrita de histórias que valorizam a identidade, a resistência e a memória do povo negro.

Capa do livro Camélia. Ilustração: GiO
Autora de Camélia, semifinalista do Prêmio Loba 2025 — iniciativa que reconhece mulheres escritoras de diferentes linguagens e regiões do país —, Giordanna conduz a narrativa de uma menina negra que, ao descobrir a história por trás de seu nome, reencontra o orgulho de sua cor, de sua origem e de sua história.
“A partir do momento em que uma menina negra na escola descobre que seu nome tem uma história de resistência, tudo muda. Ela passa a se reconhecer como parte dessa história.”
A flor e o nome
Em Camélia, a professora da escola revela à protagonista que a flor que inspira seu nome foi símbolo do movimento abolicionista — usada no Rio de Janeiro por pessoas que lutavam contra a escravidão. O gesto de nomear torna-se, assim, um ato de memória e de poder. Para Giordanna, a obra convida as crianças a refletirem sobre as referências que moldam a autoestima e a percepção de mundo.
“Para a criança, o que dá sentido ao nome é o reconhecimento. A Camélia não queria mudar de nome porque ele era feio, mas porque não tinha ninguém por perto com esse nome. O livro fala sobre a força de se reconhecer e de se ver representado.”
Trajetória e resistência
A escrita de Giordanna nasce da intersecção entre experiência e propósito. Filha de uma mulher trabalhadora que criou sozinha duas filhas nas periferias de Recife e Olinda, ela reconhece nas próprias origens a base da sua força.
“Minha mãe sempre trabalhou muito. Estudar, pra mim, era uma forma de garantir que minha vida não seria tão sacrificada quanto a dela.”
Giordanna começou a dar aulas ainda no primeiro período da graduação, enfrentando, desde cedo, o desafio de ocupar espaços onde raramente havia mulheres negras.
“Durante a universidade, eu não tive referências. Descobri autoras como Beatriz Nascimento só depois de formada. Isso mostra o quanto a presença de intelectuais negras ainda é silenciada nos currículos.”
Hoje, além de docente da UFPB, ela integra o Coletivo Dendê, formado por escritoras negras e indígenas — um espaço que fortalece a publicação e circulação de obras comprometidas com identidades historicamente silenciadas.
A literatura como lugar de espelho
“Eu fui criada com referências brancas — Tarzan, Indiana Jones, princesas europeias — e cresci achando que o belo e o heróico não me pertenciam. Camélia é minha forma de romper esse ciclo.”
Para ela, o livro é uma carta aberta às crianças negras — e um convite à reflexão coletiva:
“Quando uma criança negra se vê representada, o mundo muda. Ela entende que pode ser tudo o que quiser. E quando uma criança branca lê uma história assim, ela aprende a enxergar o outro com respeito.”
Com linguagem delicada e ilustrações vibrantes, Camélia se transforma num manifesto de afeto e de educação antirracista. A história, que começa com a rejeição ao próprio nome, termina com uma menina que finalmente entende sua própria beleza — e, com ela, o valor da ancestralidade.
Esperança em flor
“Camélia é flor de resistência.”
Assim como a personagem que aprende a amar seu nome, Giordanna também floresce entre dores, memórias e conquistas. Entre aulas, pesquisas e livros, a professora constrói caminhos para que novas gerações cresçam com raízes firmes e sonhos amplos.
“Eu quero que as crianças cheguem aos lugares e sejam vistas, cuidadas e amadas. Que não precisem se esconder para existir.”
Ao final da conversa, os olhos da autora brilham ao lembrar das meninas que hoje usam seus cabelos crespos com orgulho.
Texto e entrevista por Lucas Paza Botelho
Assessoria de Comunicação (Ascom/CE/UFPB)
